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A verdadeira ironia

Quarta-feira, 14.01.15

 

Do Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa, António Morais Silva, Editorial Confluência, 6ª edição: Ironia = Forma de interrogação outrora empregada por Sócrates em relação aos sofistas e que consistia em levá-los a contradições sucessivas para os convencer dos seus erros. // Sarcasmo em que se diz o contrário do que se que dizer e em que só pelo tom se reconhece a insinceridade das palavras. // Aquilo que apresenta contraste frisante com o que logicamente devia ser.


A verdadeira ironia desta tragédia recente em França é que os auto-intitulados "libertários", isto é, os que defendem a "liberdade acima de tudo", estão a contribuir activamente, e sem disso terem sequer consciência, para a limitação da liberdade na Europa.

E comparar a sátira agressiva (já vou explicar porque a considero assim) com o jornalismo de investigação ou com a reportagem de guerra que tornam visíveis as mortes anónimas diárias, não é compreensível.


Causar a morte de outro é o mesmo crime, não é isso que está aqui em causa.

O que está aqui em causa é a violência, a sua necessidade, a construção social de "inimigos", a alucinação de "inimigos", seja em nome da laicidade "libertária", seja em nome do fundamentalismo religioso, seja em nome do pragmatismo financeiro.


A violência e o ódio ateiam-se de várias formas, com palavras, com imagens, com armas.

Reparem que não encontramos a palavra "inimigo" apenas nos discursos inflamados dos fundamentalistas. A palavra "inimigo" surge com preocupante frequência nos discursos de políticos ocidentais, da esquerda à direita.


Tudo o que dizemos ou calamos, tudo o que fazemos ou deixamos de fazer, tem consequências. Primeiro estamos sensíveis à nossa própria experiência, seja agradável ou desagradável. A pouco e pouco aprendemos a ver e a sentir as experiências dos outros e a sentir o que os outros estão a sentir porque já o sentimos. É  a partir desta experiência que surge a consciência. E é a partir desta experiência que surge a responsabilidade.


A verdadeira ironia, a meu ver, é esta contradição humana: em nome do que se acredita (ou se diz acreditar) provocar exactamente o contrário.

Os defensores da "liberdade acima de tudo" estão a contribuir para um caminho securitário e limitador da liberdade (veja-se o que aconteceu depois do 11 de Setembro).

E os defensores da "vida", da "segurança", da "tranquilidade", da "tolerância", estão a contribuir para o aumento das divisões, fracturas e violência.

Como? Deixando-se embalar por palavras, imagens e ideologias que trazem em si mesmas a violência, a fractura, o ódio, a humilhação de outros.

Defender a vida e a liberdade é ter consciência das consequências das nossas palavras, atitudes, comportamento. Defender a vida e a liberdade é defender a paz e rejeitar todo o tipo de violência


A verdadeira ironia está de olhos abertos a olhar para dentro de nós e para o mundo. Pode ser directa e cruel, mas nunca apela à violência, nunca humilha. Pelo contrário, confere-nos o poder de nos sentirmos vivos, conscientes e unidos.

A verdadeira ironia traz em si mesma a capacidade de aceitarmos a nossa fragilidade e as nossas contradições. A verdadeira ironia une-nos a todos na nossa humanidade.

 

 

Também senti a crueldade da ironia neste início de ano: afinal comecei a falar da possibilidade da Europa se abrir e conseguir receber refugiados e emigrantes, e dias depois o futuro da Europa vai pender para o caminho inverso.

 

 

 

Post publicado n' A Vida na Terra.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:23

O tempo da voracidade boçal

Quinta-feira, 09.09.10

 

Este é o tempo da voracidade boçal

Deixemo-lo passar por nós

como vento que tudo seca

 

A voracidade boçal baseia-se

na inveja e no ódio

apropria-se de forma ilegítima

de tudo o que não lhe pertence

pode destruir o corpo, o habitat, o espaço-tempo

o que lhe acalma temporariamente a inveja

mas nunca poderá apropriar-se da alma

o que lhe atiçará ainda mais o ódio

 

Uma alma livre

não pode ser aprisionada

pois nem sequer é acessível à voracidade boçal

são duas dimensões distintas

em nada coincidem

em nada correspondem

 

Deixemo-lo passar, ao tempo da voracidade boçal

como vento que tudo seca

deixemo-lo passar por nós, desfazer-se no horizonte cinzento

terminar nalguma ilha longínqua

pois nem para os seus próximos

nem para os que se lhes seguem

será frutuosa

A voracidade boçal apenas destrói

nada fica da sua laboriosa apropriação ilegítima

 

Outro tempo virá

mais tranquilo, de uma nova claridade

mas antes

teremos de aprender a olhar para a nossa própria alma

sem contemplações

só então poderemos construir

a partir das ruínas


 


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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 10:34

Coisas simples: as memórias felizes

Sexta-feira, 12.03.10

 

Não é propriamente nostalgia, mas mais uma ligação a sensações, emoções e sentimentos que experimentei ao longo dos anos em determinados momentos felizes.

Geralmente é pela música, uma música determinada, que tenho acesso a esses momentos felizes. Mas também pode ser um dia de sol, como hoje, ou gestos simples como cuidar das plantas, ou cantar, ou dançar...

Retenho esses momentos felizes, essa claridade, essa respiração, para me acompanharem e inspirarem, uma vez que o que nos rodeia hoje em dia não é muito estimulante nem encorajador.

 

Ouvir falar da violência escolar sem castigo, de uma gestão escolar ausente... e do seu resultado dramático, um pré-adolescente que se atira ao rio e de um professor que se atira da ponte, porque chegaram ao limite do sofrimento suportável...

Ouvir um Presidente em entrevista, e acompanhá-lo penosamente no seu dia-a-dia mais que cinzento e impessoal, mais que ausente, talvez mesmo de um outro planeta...

Ouvir um ministro insultar os gestores locais, os que estão mais próximos das populações e lhes sentem as necessidades quotidianas...

Como disse Mota Pinto em discurso na AR: a ausência de verdadeiros estadistas nas rédeas do poder... Prisioneiro do seu calculismo político, o governo continua a colocar em segundo lugar o interesse nacional...

 

Sim, se não fosse a nossa incrível capacidade de nos distanciarmos da mediocridade que nos rodeia, da maior loucura e insensatez... e graças a estes neurónios, os nossos melhores aliados, que nos permitem deslocar a atenção para coisas bem mais merecedoras da nossa atenção e cuidados... sim, se não fossem osintervalos saudáveis onde se pode ir respirar para voltar à arena com outra disposição, outra energia, outro entusiasmo...

 

Podemos trazer para o nosso presente esses tempos felizes, não por desejarmos a eles voltar, mas simplesmente para nos lembrarmos dessas sensações, emoções e sentimentos, o melhor que somos.

Respirar livremente nessa claridade, nessa tonalidade, que é nossa e irrepetível, e não nos deixarmos contaminar pelo ódio que pressentimos à nossa volta, e o medo, que alimenta o ódio. E o mal, que se alimenta do medo e do ódio.

 

Haverá sempre loucos que tentam interferir na vida das outras pessoas, condicioná-las, utilizá-las, escravizá-las. E pessoas que se deixam deslumbrar por esses "falsos deuses" (Arno Gruen) que usurpam o poder. Este fenómeno será tema de um próximo post pegando neste autor que nunca esteve tão actual.

Sim, haverá sempre loucos a atropelar outros, porque se julgam superiores, de outro plano, acima das regras e dos limites, acima das éticas e dos equilíbrios. E haverá sempre conformistas a servir de capacho, a manter-lhes o cenário, a cobrir-lhes a retaguarda, a esconder-lhes as tropelias.

 

Retenho, pois, essa claridade e essa tonalidade, até sentir que, para lá de tudo, dessa ilusão maior, somos uma existência breve e fugaz...

Deixemos, ao menos, no nosso caminho, uma influência benigna. E que a nossa influência seja tão leve e imperceptivel que não seja sequer possível calculá-la ou avaliá-la. Essa é, para mim, a poesia mais elevada, a filosofia de vida perfeita.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 20:09








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